Ebook «Marta» à venda na KOBO

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Prologo de Marta

Peixelim, 1950

Era o padre António quem seguia na frente do cortejo fúnebre, com as suas vestes aprumadas e com a bíblia nas mãos cruzadas atrás das costas, e com a cabeça pregada ao chão, como o Senhor tivera as mãos pregadas à cruz. O ambiente pesado arrastava-se atrás dele, negro e opressivo. A chuva parara, numa trégua a que ninguém prestava atenção. As pessoas seguiam o caixão, absortas na dor, de olhos postos no Cardoso, no Antunes e João Alva, e em Azeredo Albuquerque que o carregavam naquela via dolorosa.
O cortejo era comprido. Além da família directa e amigos, muitos vizinhos e pessoas da vila haviam querido marcar presença, dar o apoio à família naquela trágica hora. Por isso, todos seguiam o padre António, e atrás deles vinha aquele silêncio seráfico, triste, que se abatera sobre aquela pobre vila piscatória, um silêncio que era símbolo do tremendo sofrimento, que arrancara as pessoas das suas vidinhas, e do lamentável episódio que, na mais simples leitura, lembrara a todos que tudo é efémero.
Entraram no cemitério contra-vontade. Apenas se ouvia o cascalho molhado pisado pelos pés, por entre o choro, e a angústia, que antecede o enterro de alguém querido, o enterro de alguém que não se soube ajudar.
O padre António prostrou-se ao lado do jazigo da família Alva. Estava vazio. Fora construído havia poucos anos e sempre pensara que seria Antunes, ou Graciete, os primeiros Alva que o iriam estrear. Não que desejasse a morte daqueles seus queridos amigos. Não. Que Deus os mantenha por muitos e bons anos. Apenas teria sido natural. Mas não são os meros mortais que sabem o que é natural; que sabem eles dos desígnios do Altíssimo?
Ele decidira de outra maneira…
O caixão foi deposto no chão.
O padre António olhou então para os rostos da família, esboçando uma tentativa para ganhar a coragem de que necessitava para terminar aquele funeral. 
O pai Cardoso, não tinha expressão alguma no rosto, não dava sinais de vida, branco como a cal. A mãe Virgínia que, sob o braço protector do irmão João, tremia inconsolada, levando o lenço repetidamente ao rosto que brilhava das lágrimas que insistiam em brotar dos olhos vermelhos. O tio João, que deitava agora o outro braço a Maria, sua filha, e a Josefina, sua esposa, tentando ser uma viga, embora sofresse aquela perda como se da sua própria filha se tratasse. E o avô Antunes, o patriarca da família Alva, firme como uma rocha, impávido, mesmo sob o olhar reprovador da avó D. Graciete, um olhar com o qual ele concordava.
Um pouco mais afastado, estava o Senhor Azeredo Albuquerque, calado e observador. Talvez fosse a figura mais incoerente ali presente. Mesmo para ele, que entendia aquelas questões familiares, a necessidade das aparências e a defesa dos bons costumes, a presença daquele homem era incomodativa. Dos Albuquerque, unidos aos Alva pelo casamento de Afonso Albuquerque com Laurinda Alva, não estava mais ninguém. E não estranhava.
O padre clareou a voz, bateu a lombada da bíblia suavemente nas mãos, sem saber por onde começar o sermão.
Que dizer a uns pais que perderam a filha naquelas condições?
Que dizer a uns avós que viram partir a neta muito antes do tempo?
Que dizer a um tio e a uma prima que se viram privados de quem estimavam tanto?
Não tinha palavras, e nem mesmo Deus naquelas alturas o inspirava.
Deitou os olhos ao céu nublado, pensando que não gostava de estar ali e de lhe ter calhado aquele papel.
Inspirou profundamente. Deus sabia que ele agia nos Seus ensinamentos.
Abriu a bíblia num salmo que escolhera previamente, pois sabia que naquele momento nunca se iria lembrar de um, e declamou-o. Deixou que as palavras lhe saíssem pela boca, pois a sua cabeça estava longe. Tão longe quão longe ficavam os tempos que a sua memória lhe trazia.
No ano de 1934, num bonito domingo soalheiro, quando sobre a pia baptismal dera o nome àquela pobre criança que agora jazia naquele caixão gélido, a pequenita chorara: sentira o frio da bênção sobre a moleirinha. Abençoada criatura.
Vira-la crescer, destemida, Maria-rapaz, algo complicada e revoltada com as coisas, ou com a forma como as coisas eram, mas uma boa rapariga.
Era a luz na casa dos Alva, a menina dos olhos dos avós e o «ai Jesus!» dos pais. E até na catequese brilhava, qual anjo no cimo da árvore de natal. Quis o destino que a sua luz fosse obscurecida, quis o destino que ninguém estivesse atento.
O salmo terminou e fechou-se o santo livro. Chegara a hora dos prantos, dos choros desaustinados e dos gritos carpidos.
O caixão entrou no jazigo ao som das carpideiras, a porta fechou-se com um som que ecoou na eternidade e o padre deixou escorrer uma lágrima…
À noitinha, nesse mesmo dia, o Antunes Alva e o Azeredo Albuquerque bateram à porta da igreja. Foram conduzidos à sacristia, onde o padre tomava a ceia. O padre António não se deixou surpreender…
- Está com má cara, padre! – exclamou Azeredo – Passou-se alguma coisa?
- Creio que aqui o Senhor Antunes não ache piada a esse seu reparo, Sr. Albuquerque. – Azeredo olhou de soslaio para o seu companheiro e acabou por anuir – Afinal, ele perdeu uma neta!
Antunes Alva procurou uma cadeira e sentou-se em silêncio. Coisa que Azeredo, em breve, imitou.
- O que os traz por cá, neste dia de má memória? – questionou, limpando a boca ao guardanapo – O que os inquieta?
- A sua lágrima esta tarde, padre! – exclamou Antunes com ponderação – É raro um padre chorar no funeral de paroquianos.
- Ora, Sr. Antunes. – tentou sorrir – Foi um cisco que me entrou nos olhos…
Os dois homens trocaram olhares. E o padre António engoliu em seco. Ele chorara. Chorara de arrependimento, porque lhe custava ter enterrado aquela rapariga, ter presidido ao funeral de uma moça ingénua, que morrera de forma tão inglória e desnecessária. Fora apenas uma lágrima de arrependimento por não ter tido a atitude certa…
- Ficamos preocupados, Padre! – admitiu Azeredo – Pensamos até em falarmos com o bispo…
- Com o Bispo?! – interrompeu – Não vale a pena incomodarem-no com tolices. Além disso, o que é que lhe iriam dizer?! – Antunes e Azeredo mostraram-se incomodados com a pergunta – Que o padre António tem um cisco nos olhos?!
- Assim sendo, assim é! – disse Azeredo em jeito de conclusão e encaminhando-se para a saída.
- Eu sou um homem de palavra, senhores! - exclamou – Mesmo que isso manche a minha alma… - levantou-se - Deus será meu Juiz, quando chegar a minha hora! E ele conhece-me bem!
- Ainda bem que pensa assim. – admitiu admirado Azeredo.
- Pergunto-me: será que os senhores conseguirão ter esta paz de alma?
Os dois homens saíram cabisbaixos e o padre António voltou a sentar-se à mesa, pensativo e triste: Marta morrera, e com ela levara a sua paz e a paz daquelas duas famílias; paz de alma seria coisa que nunca mais ninguém teria. Que Deus valesse a todos.

in, Marta, pag. 1, 2014, Paulo Pinto Fonseca

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Marta

Olá a todos

O projecto Ebook finalmente foi concretizado. Desde a semana passada que o ebook Marta se encontra disponível para download no site da Kobo.

Marta é uma história sobre uma família, especialmente sobre Teresa, e leva-nos até aos últimos anos do Estado Novo e a realidades que, hoje - muitos de nós -, desconhecemos terem sido vividas.


Deixo-vos a sinopse:

Perante a inevitabilidade da conversa, o padre, limpando a boca ao guardanapo, quis saber o que os levara ali, naquela noite de má memória - o que os inquietaria?
Antunes, com ponderação, respondeu que fora a lágrima que ele derramara naquela tarde; justificando-se com o facto de ser raro um padre chorar no funeral de paroquianos.
Fora um cisco que lhe entrara nos olhos, disse o padre.
Os dois homens trocaram olhares. E o padre António engoliu em seco. Ele chorara. Chorara de arrependimento, porque lhe custava ter enterrado aquela rapariga, ter presidido ao funeral de uma moça ingénua, que morrera de forma tão inglória e desnecessária. Fora apenas uma lágrima de arrependimento por não ter tido a atitude certa…
Azeredo sublinhou a preocupação que o transtornara, a ele e a Antunes Alva. E inquietação deles fora tal que anunciaram ter pensado ir falar com o bispo.
O padre António interrompeu-os e recorreu à sua ironia, perguntando-lhes se iriam inquietar o Bispo por causa de um cisco lhe ter entrado na vista.
Azeredo acatou a resposta e, em jeito de conclusão,  encaminhou-se para a saída. No entanto, o padre António fez-se ainda ouvir para lhes dizer que era um homem de palavra, mesmo que isso lhe manchasse a alma. Dito isto, levantou-se para proclamar que Deus seria o seu Juiz quando chegasse a sua hora - e que Ele conhecia-o bem.
Azeredo Albuquerque, admirado, admitiu que iria mais descansado depois de ouvir aquilo.
O padre não se fez rogado e desafiou-os, lançando para o ar a questão: seriam eles capazes de ter aquela paz de alma?
Os dois homens saíram cabisbaixos e o padre António voltou a sentar-se à mesa, pensativo e triste: Marta morrera, e com ela levara a sua paz e a paz daquelas duas famílias; paz de alma seria coisa que nunca mais ninguém teria. Que Deus valesse a todos.

By Fonseca, Paulo Pinto, Marta, 1ª Eedição, Janeiro 2014